Evangélicos do Brasil se cansam da politização da fé após a vitória de Lula no segundo turno

Num pequeno espaço de coworking na periferia do Rio de Janeiro, cerca de dez fiéis se reuniam numa manhã de domingo para um culto diferente. Desde 2014, o grupo Redenção Baixada oferece um refúgio para quem se cansou de ver igrejas colocadas a serviço da extrema direita, contou o jornal Le Monde em 15 de outubro.
Essa história pequena, de um domingo qualquer, ajuda a entender a história grande do Brasil de 2026. No dia 25 de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva venceu o segundo turno presidencial com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do senador Flávio Bolsonaro, numa virada histórica depois de ter perdido o primeiro turno.
Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, havia liderado o primeiro turno em 4 de outubro, com 47,03% contra 45,16% de Lula. Nenhum candidato que terminou em segundo no primeiro turno havia vencido um segundo turno presidencial desde a redemocratização, até agora.
A margem foi de 4,4 milhões de votos, segundo os números do Tribunal Superior Eleitoral: 64.256.232 votos para Lula, 59.826.041 para Flávio Bolsonaro. O candidato derrotado se recusou a reconhecer o resultado e anunciou que pediria a anulação do pleito, por causa da decisão de estender a votação por duas horas.
O TSE informou depois que apenas 34.393 pessoas votaram no período extra. Dias depois, o Partido Liberal, legenda de Flávio Bolsonaro, reconheceu o resultado proclamado pelo TSE.
Evangélicos cansados da política na igreja: 81% rejeitam política nos cultos
O dado mais forte da reportagem do Le Monde não é eleitoral, é pastoral. Segundo um estudo conjunto do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e da Quaest, publicado em 23 de setembro, 81% dos evangélicos se opõem a que temas políticos sejam levantados durante cultos ou eventos religiosos em campanhas eleitorais.
Os evangélicos representam 29% da população brasileira com 16 anos ou mais, segundo a mesma pesquisa, contra 50% de católicos. Juntos, os dois grupos somam 79% dos brasileiros, o que explica por que cada campanha disputa palmo a palmo o voto religioso.
A antropóloga Livia Reis, do ISER, disse ao Le Monde que muitas pessoas deixaram suas igrejas nas eleições de 2018 e 2022, principalmente mulheres, porque viram a politica causando divisões. Para quem cresceu em comunidades evangélicas tradicionais, sair da igreja causa sofrimento, medo e ansiedade, registrou o jornal.
O pastor Vladimir de Oliveira Souza, de 55 anos, lidera o Redenção Baixada, e sua comunidade é justamente o retrato desse cansaço. Ali, o culto não é palanque, e a fé não é cabo eleitoral. É um espaço pequeno, mas revela um movimento maior: fiéis que querem a igreja de volta para a oração, não para a campanha.
É desanimador ver a religião usada pela extrema direita.
Essa frase, que dá título à reportagem do Le Monde, resume o sentimento de uma parte dos evangélicos brasileiros.
Nossa Senhora Aparecida padroeira: a polêmica falsa que dominou a campanha
Nenhum episódio mostrou melhor essa disputa do que a polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida. Durante o primeiro turno, circulou nas redes sociais a alegação de que Flávio Bolsonaro, que se identifica como evangélico, pretendia retirar da santa o título de padroeira do Brasil caso fosse eleito.
A informação era falsa e foi negada pelo candidato do Partido Liberal. Mas o estrago já estava feito: a padroeira, um dos maiores símbolos do catolicismo brasileiro, havia entrado no centro da campanha, e os dois candidatos passaram a disputar publicamente a devoção a ela.
No dia 12 de outubro, feriado da padroeira, Lula participou de uma missa reservada na capela do Palácio da Alvorada, em Brasília, com a primeira-dama Janja, e defendeu o respeito às diferentes crenças. No mesmo dia, Flávio Bolsonaro compareceu à Catedral Metropolitana de Brasília, com a esposa Fernanda, a convite do cardeal Dom Paulo Cezar Costa.
Enquanto isso, milhares de fiéis se reuniam no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, no interior de São Paulo, onde esteve o vice-presidente Geraldo Alckmin. A devoção, que nasceu em 1717 quando pescadores encontraram uma pequena imagem da Virgem no rio Paraíba do Sul, continuava ali, maior do que qualquer campanha.
Os números mostram a divisão que a campanha explorou. Na pesquisa Quaest divulgada em 28 de setembro, Lula liderava entre os católicos com 48% contra 29% de Flávio, enquanto Flávio liderava entre os evangélicos com 46% contra 27% de Lula.
Já o Datafolha de 8 de outubro apontava 69% dos evangélicos para Flávio, contra 25% para Lula. Em 10 de outubro, Flávio chegara a chamar a eleição de guerra espiritual num encontro pentecostal no Rio.
A fé no Brasil e na América Latina aparece em outras reportagens deste site, como outras reportagens em português deste site e mais notícias da fé no Brasil em português. São histórias diferentes, mas com o mesmo pano de fundo: a busca por uma fé vivida, não usada.
O debate sobre religião e política continua também em outras análises em português sobre a vida pública e em mais reportagens em português sobre comunidades de fé.
O segundo turno passou, o resultado foi proclamado e o quarto mandato de Lula está confirmado. Mas a pergunta que fica não é eleitoral, é pastoral, e vai acompanhar as igrejas brasileiras nos próximos anos.
As igrejas vão recuperar o culto como espaço de oração, ou vão continuar sendo palanque a cada eleição? Os fiéis cansados vão voltar, ou vão continuar procurando refúgios como o pequeno grupo da Baixada? A resposta se escreverá nos domingos que vêm, longe das urnas e perto do altar.
Perguntas frequentes
Luiz Inácio Lula da Silva venceu o segundo turno de 25 de outubro de 2026 com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, com uma margem de 4,4 milhões de votos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.
Segundo o Le Monde, muitos fiéis se cansaram de ver igrejas colocadas a serviço da extrema direita; o estudo ISER/Quaest mostrou que 81% dos evangélicos se opõem a temas políticos em cultos durante campanhas.
Circulou nas redes a alegação falsa de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. A informação foi negada pelo candidato, mas dominou parte da campanha, e em 12 de outubro os dois candidatos participaram de missas separadas em Brasília.
O candidato se recusou a reconhecer o resultado e anunciou que pediria a anulação, por causa da extensão da votação por duas horas; o TSE informou que apenas 34.393 pessoas votaram no período extra, e o Partido Liberal depois reconheceu o resultado proclamado pelo TSE.
Segundo a pesquisa Quaest para o ISER, 50% dos brasileiros com 16 anos ou mais se declaram católicos e 29% evangélicos, somando 79% da população nessa faixa etária.
🔔 Don't Miss the Next Story!
Get breaking Christian news on your phone before everyone else — allow notifications when prompted, or join our newsletter below!
But the most surprising part of this story is yet to come — keep reading.
🙏 Have a Testimony to Share?
Has God done something amazing in your life? Or want us to cover a specific story? Send your testimony or story request via WhatsApp — your story could encourage thousands!
💬 Comments
Share your thoughts below. Be kind and respectful. If this story touched you, let us know in the comments!