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📰 FaithStories News Desk · Article #175 · Published: 23 Oct 2026, 05:37 PM PKT

'Fé e voto': estudo monitorou 7.456 cultos e missas e achou propaganda eleitoral em só 3,2% das igrejas

Púlpito de igreja evangélica brasileira durante culto transmitido ao vivo
Em 7.456 cultos e missas analisados antes do 1º turno, pesquisadores da UFRJ encontraram propaganda eleitoral em apenas 3,2% — e a polêmica que veio depois dividiu cristãos e acadêmicos.

Rodrigo Toniol passou semanas assistindo a cultos no YouTube. Não por devoção — por ciência. O antropólogo da Universidade Federal do Rio de Janeiro coordenou o levantamento que vasculhou 7.456 celebrações religiosas transmitidas publicamente nos dois domingos anteriores ao primeiro turno das eleições de 2026. Foram 13.886 horas de gravação, vindas de igrejas católicas, batistas e Assembleias de Deus em 26 estados e no Distrito Federal. O resultado contrariou a percepção mais difundida no debate público: propaganda eleitoral apareceu em apenas 3,2% das celebrações analisadas.

O estudo, batizado de Fé e voto: um retrato do dicurso eleitoral nas igrejas brasileiras, foi realizado pela organização More in Common Brasil em parceria com o Grupo de Pesquisa Passagens, da UFRJ, coordenado por Toniol. Os resultados foram divulgados pela Folha de S.Paulo em 13 de outubro e detonaram uma guerra de notas de repúdio que ainda não terminou.

A Frente Parlamentar Evangélica (FPE) e o Instituto Brasileiro de Direito e Religião (IBDR) amplificaram o tema e divulgaram notas de repúdio à pesquisa, levantando suspeitas de que o estudo teria o objetivo de verificar se líderes religiosos cometeram crime eleitoral — uma leitura que o Coletivo Bereia, após checagem, classificou como distorção do propósito da pesquisa.

Como a pesquisa 'Fé e voto' analisou milhares de igrejas no YouTube

O método foi simples e público: os pesquisadores gravaram, transcreveram e analisaram transmissões feitas pelas próprias igrejas em canais abertos do YouTube, nos dias 20 e 27 de setembro de 2026. Cerca de 10% de todas as igrejas católicas e batistas do Brasil entraram na amostra, além de aproximadamente 2.000 igrejas da Assembleia de Deus — incluindo cultos da Assembleia de Deus de Pernambuco, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e da Igreja Batista da Lagoinha.

«Não consideramos que uma pesquisa acadêmica sobre discursos religiosos publicamente transmitidos represente qualquer ameaça à liberdade religiosa», disse Toniol à ACI Digital. «O levantamento analisou exclusivamente missas e cultos disponibilizados pelas próprias instituições religiosas em canais públicos do YouTube. Não houve ingresso em espaços privados, interceptação de comunicações ou acompanhamento de atividades reservadas».

Propaganda eleitoral por denominação: Assembleia de Deus, batistas e católicos

Os números variam muito entre tradições. Nas celebrações da Assembleia de Deus, a propaganda eleitoral apareceu em 8,3% dos cultos. Entre os batistas, o índice foi de 1,4%. Nas missas católicas, chegou a apenas 0,7%. No total, 237 reuniões religiosas tiveram o que os pesquisadores classificaram como propaganda eleitoral — pedidos explícitos de voto, nomeação ou bênção de candidatos e campos políticos. Em grande parte dos episódios, os pedidos de voto foram para deputados estaduais e federais, não para a presidência.

Mas o dado mais surpreendente é outro: os pesquisadores identificaram um fenômeno quase cinco vezes mais frequente de discursos que incentivavam o voto consciente, a responsabilidade dos eleitores e a superação da polarização política, sem recomendar candidaturas específicas. Essas manifestações de tom cívico apareceram em 15,3% das celebrações.

«Os resultados da pequiza contrariam a ideia de que as igrejas estejam sistematicamente transformadas em espaços de propaganda eleitoral», afirmou Toniol. A imagem das igrejas convertidas em comitês eleitorais, tão repetida no debate público, não se sustentou nos dados.

Notas de repúdio: Frente Parlamentar Evangélica e juristas cristãos reagem

A reação foi imediata. A FPE e o IBDR divulgaram notas de repúdio questionando os critérios de classificação dos discursos e apontando riscos à liberdade religiosa e à autonomia das igrejas. O Instituto Isabel e a Frente Parlamentar Católica de Fortaleza também se manifestaram, segundo a ACI Digital.

O Coletivo Bereia ouviu Toniol e a antropóloga Regina Novaes, coordenadora acadêmica do Instituto de Estudos da Religião (Iser). «Do ponto de vista científico, uma pesquisa que investiga a ocorrência de determinada prática não pressupõe que todos os integrantes do universo estudado a realizem», explicou Novaes. «De fato, o que se busca saber é: como e com qual frequência acontece determinado fenômeno?»

Em sua coluna na Folha de S.Paulo, publicada em 13 de outubro, o próprio Toniol escreveu que o levantamento buscava «identificar crimes eleitorais e menções políticas nos púlpitos religiosos» — frase que alimentou as suspeitas, embora o pesquisador insista que classificar uma fala como propaganda eleitoral no estudo não significa concluir que houve infração à lei.

Fé e política no Brasil: o que os dados revelam sobre os púlpitos

O episódio expõe uma ferida antiga da democracia brasileira: a desconfiança mútua entre o campo religioso e o campo acadêmico. Enquanto o pastor Joel Engel declarava que «a batalha pelo Brasil é espiritual» e convocava cristãos a orar e votar, pesquisadores tentavam medir, com régua científica, o que de fato acontece nos púlpitos.

Há precedentes de tensão: a bancada evangélica encolheu na Alepe em 2026, e igrejas convocaram a oração nacional «Clama, Brasil!» antes das eleições de domingo. A fé segue sendo um dos motores mais poderosos da vida pública brasileira — e cada tentativa de medi-la vira campo de batalha.

Para os cristãos, a lição do estudo é dupla. Primeiro: a imensa maioria das igrejas não transformou o púlpito em palanque — 96,8% das celebrações não tiveram propaganda eleitoral. Segundo: quando a política aparece no púlpito, ela vem mais na forma de exortação cívica do que de campanha. A pergunta que fica é se, da próxima vez, os dois lados conseguirão conversar antes de trocar notas de repúdio.

O que ninguém discute é o tamanho do fenômeno: 7.456 cultos e missas, 13.886 horas, 26 estados. A fé brasileira foi medida como nunca antes — e o resultado surpreendeu até quem a mediu.

Perguntas frequentes

O que é o estudo 'Fé e voto'?

Levantamento da More in Common Brasil com o Grupo de Pesquisa Passagens (UFRJ) que analisou 7.456 cultos e missas transmitidos no YouTube nos dois domingos antes do 1º turno das eleições de 2026, buscando menções políticas e eleitorais nos púlpitos.

Quanta propaganda eleitoral foi encontrada nas igrejas?

Apenas 3,2% das celebrações (237), variando por denominação: 8,3% na Assembleia de Deus, 1,4% entre batistas e 0,7% nas missas católicas. Discursos de tom cívico apareceram em 15,3%.

Por que deputados evangélicos repudiaram a pesquisa?

A Frente Parlamentar Evangélica e o IBDR divulgaram notas de repúdio questionando os critérios de classificação e apontando riscos à liberdade religiosa. O Coletivo Bereia checou e concluiu que as notas distorcem o propósito do estudo.

O estudo acusou igrejas de crime eleitoral?

Não. O pesquisador Rodrigo Toniol afirma que classificar uma fala como propaganda eleitoral no estudo não significa concluir que houve infração à lei — a análise usou apenas transmissões públicas feitas pelas próprias igrejas.

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